Gente da minha terra

sábado, Outubro 02, 2004

Antonio da Cruz de Sousa

Filho de Duarte Sousa e de Albertina da Cruz, nasceu a 15 de Dezembro de 1950. Frequentou o antigo Externato de Santo Antonio, no Fundao, mas as inconstancias do seu temperamento nao lhe permitiram passar alem do antigo 5º ano do liceu, nao obstante o facto de ter obtido alguns exitos escolares dignos de mençao.
No periodo de 1971-1973 esteve na guerra colonial, na Guine', onde passou por varias vicissitudes que viriam a marcar o seu futuro caracter. Esteve destacado em Bissau e Teixeira Pinto, tendo conhecido nesta ultimo aquartelamento o Coronel paraquedista Rafael Durao, que ele descreve pitorescamente como o prototipo do militar fanfarrao e autoritario. Os momentos mais penosos da guerra passou-os em Guilege e Gadamael, no sul da provincia, onde esteve varias vezes debaixo de fogo. De entre as historias guerreiras que constituem o seu reportorio de soldado ha' uma que considero especialmente caricata: aquela em que uma companhia inteira e' posta em debandada por um... enxame de abelhas. Ha' tambem aquela em que o nosso heroi ia sendo morto por um preto depois de ter ido espreitar as pretas a tomar banho nas bolanhas, mas estas sao contas de outro rosario...
Este nidense e' o exemplo mais acabado de alguem que encerra dentro de si um talento artistico insuspeitado. Ha' muitos anos levou a cabo uma banda desenhada onde relatava as aventuras rocambolescas dum padre e da sua bombastica sobrinha. A historia, desenhada a tinta da china, ocupava cerca de 100 paginas A4 pelo que ja' poderia ser considerado um trabalho de certo folego. Um dia, porem, num acesso de perfeccionismo e de insatisfaçao artistica decidiu queimar tudo.
Perdeu-se assim de forma irremediavel um trabalho de grande valia, o qual, se publicado, podia ter mudado radicalmente o rumo da sua vida. Vasculhando nos meus arquivos pessoais descobri certa vez um fragmento que constitui as primicias da sua produçao artistica e onde ja' cintila a luz dum talento algo amadurecido. A sequencia de imagens que se seguem falam por si.



Para ampliar a banda desenhada avance com o cursor sobre os desenhos e carregue no botao esquerdo do rato.

Com todo este potencial podia ter evoluido para um artista de grandes meritos, mas o seu temperamento voluvel e pouco sociavel, aliado aos traumas psicologicos da guerra, nao permitiram que o genio artistico se traduzisse em obras de vulto, pelo menos ate' 'a data.

terça-feira, Setembro 14, 2004

Cap. Joao da Costa Andrade

Filho de Manuel Duarte Santiago e de Emilia da Costa, nasceu em Ninho do Açor a 30 de Outubro de 1891. Pelos dados genealogicos de que disponho tudo indica que seja descendente do Cap. Fernao Dias e de Maria Pires, o casal seiscentista cuja sepultura se encontra 'a entrada da igreja.

Tive o grande privilegio de conhecer na intimidade este nosso caro conterraneo do qual guardo muito boas recordaçoes . Durante algum tempo chegamos mesmo a trocar correspondencia que hoje conservo no meu arquivo como lembrança preciosa.

( Para continuar)










quinta-feira, Setembro 09, 2004

Capitao Fernao Dias

O seu nome consta duma pedra tumular situada 'a entrada da igreja de S. Miguel, Ninho do Açor. A inscriçao diz o seguinte:

"De Maria Pires viuva do Capitao Fernao Dias e de seus herdeiros - 1...87"

Quem era o Cap. Fernao Dias? Em que epoca viveu? Estas interrogaçoes encontram-se parcialmente esclarecidas. Sabe-se que Fernao Dias casou com Maria Pires cerca de 1640. Assim sendo, a data que consta na lapide sera' 1687, ano em tera' morrido Maria Pires. Do casal nasceu, em 1654, Paulo Dias Leonardo, casado com Leonor Antunes. Estes seriam, entre outros, os herdeiros a que se refere a lapide.

Fernao Dias e sua mulher foram a cepa de onde sairam alguns clerigos, a saber: Padre Bartolomeu Dias Leonardo, Rev. Miguel Pires Leonardo, Padre Dias Leonardo da Cruz e outros. Em 1654 era Cura de Ninho do Açor o padre Manuel Leonardo que, nesse mesmo ano, foi padrinho de baptismo de Paulo Dias Leonardo, filho do referido casal. Tudo indica, a avaliar pelos nomes, que o padre seria irmao dum dos conjuges. Uma pergunta final se impoe. A inscriçao diz que a sepultura e' de Maria Pires e de seus herdeiros. O nome de Fernao Dias figura na lapide como simples aposto do nome da mulher. Significara' isto que o capitao foi enterrado noutro lugar?


Padre Joao da Costa Andrade

Nasceu a 8 de Fevereiro de 1850, em Ninho do Açor, filho de Antonio da Costa e de Maria Leitoa. Era tio do Sr. capitao Joao da Costa Andrade. De acordo com os dados genealogicos que possuo em arquivo o Sr. Padre era descendente pelo lado paterno do cap. Fernao Dias e de Maria Pires, cuja sepultura se encontra junto 'a porta da igreja matriz. Paroquiou a freguesia de Ninho do Açor durante cerca de 40 anos, entre 1876 e 1915 , pelo menos.

Numa carta que me foi endereçada o Sr. capitao descrevia assim o tio:

Meu tio era pessoa ilustrada, possuindo uma biblioteca para cima de mil volumes, hoje duplicada por mim. Estava bastante truncada. Meu tio gostava que toda a gente lesse e se ilustrasse e entao emprestava com a maior facilidade os seus livros. Se a obra era de mais dum volume nao entrgavam alguns deles como verifiquei e... pronto! Alguns colegas me vieram dizer que lhes tinham oferecido esta ou aquela obra e que havia eu de dizer? De mais a mais tratando-se de sacerdote.

Alem disso, assinava um jornal diario e algum tempo dois; alem de varias revistas mensais e semanais centificas como a Broteria e outras alem das religosas. Gostava tambem que se plantassem arvores. As primeiras laranjeiras (estas pelo menos que me lembram) foram mandadas vir, a pedido dos interessados, do Porto. Lembrarei as da Rosa Rita, Jose' Marques, etc.. Quando ouvia alguem pronunciar mal as palavras, lembro-me por exemplo de Sebastiao que a gente da aldeia pronunciava Sebastien, na rua emendava logo, mas se estava em casa vinha 'a janela para corigir! Esmoler ate' ao extremo. Isto presenciei eu: certa vez em que um pobre bateu 'a porta veio 'a janela e, achando-o necessitado de roupa, disse para a mnha mae:

- Oh Emilia, ve se tens ai uma camisa para dar a este pobre...
Minha mae disse que nessa altura nao havia.
-Ve la bem, senao dou a minha!

Ja' me nao recordo deste desfecho, mas de qualquer modo satisfe-lo. O que nao sei e' se foi a camisa ou outra coisa qualquer. Lembro-me de meu pai andar a averiguar quem tinha deitado o fogo a uma parte do bardo do rebanho e sabendo meu tio o que andava fazendo disse-lhe:

- Deixe-se disso!
- Entao porque?
- Nao lhe queria estar na pele - respondeu meu tio.
- Mas porque?
- Porque tem que dar contas a Deus.
.......................

Por aqui se pode ver que o Sr. padre, para alem de culto e caridoso, era tambem um homem de fe'.

quarta-feira, Setembro 08, 2004

Nota de abertura

Antes de mais bem vindos a este ciberespaço.

Esta pagina e' dedicada aos meus conterraneos de Ninho do Açor. Concebi-a nao para falar de pedras e monumentos mas tao somente de pessoas. A razao disto esta' em que no fundo da minha essencia me considero um humanista. Esta auto-definiçao nao significa da minha parte uma crença ingenua na excelencia do ser humano, significa apenas que as pessoas, enquanto seres viventes, me interessam pela sua personalidade com tudo o que esta possa ter de bom ou de menos bom.

Tenho perfeita consciencia que os esboços biograficos que irei apresentar nesta galeria nao sao de anjos nem de serafins, mas de pessoas de carne e osso onde os tons niveos das virtudes e as cores sombrias das paixoes se misturam em proporçoes variaveis de acordo com a estrutura etico-moral de cada um. E' natural e humano que assim seja. Quero dizer com isto que tambem eu nao sou nenhum santinho, que como qualquer outra pessoa tambem tenho as minhas idiossincrasias, facto este que me torna de certo modo compreensivo e ate' solidario com os demais porque todos temos em comum uma coisa que se chama natureza humana. Dito isto acho que ja' e' chegada a altura de exclamar como Terencio: Homo sum: humani nihil a me alieno puto. Sou homem e nada reputo alheio a mim do que e' humano.

Esta galeria nao pretende ser uma passerelle de manequins ou de varoes ilustres no sentido romano do termo, mas antes um pequeno mostruario de pessoas mais ou menos cultas que pelas suas obras ou caracteristicas de personalidade merecem em meu entender que se lhes dedique umas quantas linhas. Gostaria de minibiografar aqui uma pleiade de nidenses que fosse realmente representativa do povo, mas e' evidente 'a partida que tal nao vai ser possivel a nao ser que me mandem os dados por e-mail ou atraves dos comentarios, funcionalidade esta que permite uma interacçao efectiva entre mim e os leitores. Ha', de facto, muitos nomes que gostaria de ver aqui e que so' nao vao aparecer por escassez ou ausencia de dados.

Manuel da Cruz de Sousa